sexta-feira, novembro 12, 2004

Estou cansada, mas vou continuar! (Esmeralda Campelo Vilela)

Um texto que mostra bem como tenho me sentido ultimamente.


"Hoje, apesar do sol claro e lindo, da brisa suave entre as folhas, do sorriso maroto dos meninos na calçada, Eu me senti cansada.
E até pensei, de forma equivocada, em parar, sumir, correr e desistir.
Cansada de ouvir lamentações, pedidos repetidos de orações. Cansada de cobranças e desconfianças. Cansada de ser pobre, abraçar pobre, cuidade de pobre, acreditar que pobre tem alma. Enquanto há tantos ricos fervorosos, abençoados, poderosos. Para quem, ser pobre, estar apertado, é coisa do inferno, é pecado. Estou cansada do sincretismo, da Biblia marcada com folhas de arruda. Da troca do anjo que falhou na ajuda. Estou cansada de ver gente rolando, pulando gritando, sapateando com sapatinhos de fogo. E, cansada deste jogo, senti vontade de parar. E então, quando me pus a pensar, lembrei que o diabo não para. E, sempre se prepara para roubar, matar e destruir. E eu resolvi seguir. Sabendo que há pranto em cada canto. Na cidade bela, no palácio, na favela. Não posso desistir. Se há tantos que não podem sorrir. E tantos que só sabem chorar... Estou cansada de ver poderosos na tela, bailarinos no altar, "inebriados", "embriagados" no templo. E, em nenhum momento, souberam o que é o lamento de quem vive na rua. Sob o sol, sob a lua. no frio e no calor, convivendo com o ódio, sem conhecer o amor, sem nunca ouvir dizer: Que o amor tudo crê tudo sofre, e espera. Que o amor não se ufana, não destroi. não engana. Estou cansada de ver, templos cheios de santos que têm mãos, mas não servem. Tem pés, mas não andam, têm olhos, mas não veêm. Têm ouvidos, mas não ouvem. Têm coração, mas não amam. Têm bens, mas não repartem. Estou cansada, mas vou continuar. Porque a minha caminhada está perto de acabar... E o dono da lavoura vai voltar."

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