domingo, fevereiro 17, 2008

Engracado. Acabei de escrever a minha ultima entrada no blog e dei de cara com esse artigo que aqui copio. Muito apropriado.

Minha Cabeça é Vermelha, Azul E Branca, Meu Coração Verde E Amarelo


Os Estados Unidos é o país das oportunidades. É onde muitos de nós viemos buscar os nossos sonhos de viver uma vida melhor, com segurança, justiça, liberdade, e principalmente com uma melhor condição financeira. Para muitos imigrantes Brasileiros nos Estado Unidos, aqui é a nossa nova casa, temporária ou permanente.

Muitos Brasileiros vieram com planos de passar pouco tempo para juntar um bom dinheiro e logo voltar. Mas a realidade muitas vezes nos leva a ficar mais tempo do que originalmente programado. Outros já vieram com a intenção de ficar por aqui por um tempo indefinido. Quem sabe talvez voltar para a aposentadoria. Seja lá qual tenha sido o seu plano, o tempo vai passando, e logo você começa a se adaptar. Em pouco tempo você encontra um lugar para ficar, faz novos amigos, arruma um emprego, começa a falar bem o Inglês, e de repente você já está até participando das comemorações dos feriados de 4 de Julho e do Thanksgiving.

Sem você perceber, a sua cabeça começa a mudar. Você não é mais a mesma pessoa que chegou e a sua maneira de pensar já não bate com aquelas idéias que você trouxe do Brasil. É quando você encontra com outro Brasileiro recém chegado que você nota a diferença. É muito fácil entrar na rotina e adotar os hábitos dos Americanos: de trabalhar exaustivamente; de não aparecer na casa do outros sem avisar; ou até mesmo algo tão simples como não atravessar a rua até que o semáfaro para pedestres lhe diga que é seguro.

Confesse, se você está nos Estados Unidos a algum tempo, a sua cabeça mudou e trocou de cor. Agora é vermelha, azul e branca. Isso é quase inevitável.

Mas e o coração? Esse é bem mais teimoso. O nosso amor pelas coisas da nossa terra natal jamais nos deixa. Seja o sabor especial do nosso café, a beleza de nossa música, a ginga do nosso futebol, isso tudo faz parte do que somos e fica conosco para sempre. Por mais que você tente, as coisas aqui não têm o mesmo gostinho. Ir a praia nos Estados Unidos não se compara com ir a praia no Brasil. E quem já tentou entrar na onda da grande final do futebol americano, o Super Bowl, sabe bem que apesar de toda a badalação, a emoção jamais se compara com o sentimento que temos ao ver o nosso time jogar o verdadeiro futebol.

O poema “A Canção do Exílio” é um retrato pefeito do sentimento de muitos imigrantes Brasileiros nos Estados Unidos, ou em qualquer outro país:

Canção do Exílio

“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.”

Gonçalves Dias

Por mais que a gente se adapte ao país adotado, e que a nossa maneira de pensar mude, os nosso sentimentos continuam o mesmo. O amor pelo Brasil e as coisas da gente ficam conosco para sempre. E quando a saudade baixa, não é fácil.

A minha cabeça pode ter se tornada vermelha, azul e branca, mais o meu coração sempre seré verde e amarelo.

Dividida

Tem dias que parece que nao pertenco a lugar nenhum. Como se eu tivesse um vazio do tamanho do mundo dentro de minha nacionalidade. Nasci em um pais, moro em outro, e entao vivo em um dilemma, nao quero esquecer de onde vim, mas tenho que assimilar essa nova cultura ou nunca vou conseguir me adaptar. Vivo entao, essa vida louca que teimo em dizer que e multicultural e sem fronteiras, mas que dentro do meu peito vira perdida e sem raizes. O que me faz lembrar de uma musica do Oswaldo Montenegro, "Eu hoje acordei tão só , mais só do que eu merecia , eu acho que será pra sempre , mas sempre não é todo dia".

Como viver em uma terra que nao e a minha e nao me sentir como uma estranha? Como falar uma lingua que nao me pretence sem esquecer da minha? Como nao me sentir so, quando o resto do mundo ao meu redor sente um nacionalismo tao apurado por memorias que nunca tive? As piadas sao diferentes. As historias sao diferentes. Os relacionamentos sao diferentes.

Nao que eu nao goste daqui, na verdade eu gosto, mas se eu pudesse fazer com que eles entendessem…

Ah, se eles soubessem que existe sim um outro mundo, onde meu coracao esta enterrado e teima em voltar pelo menos uma vez ao mes, quando no silencio da noite minha mente vagueia tentando se achar. Ah, se eles soubessem que quando fecho meus olhos ainda posso sentir o aroma no ar, o sabor na boca, a melodia nos meus ouvidos, o sorriso no meu rosto de um tempo onde eu pertencia. Onde eu podia ser quem eu sou porque ao meu redor todo mundo era conhecido, mesmo os estranhos. Ah, se eles soubessem que existe um lugar onde a esperanca tem um significado diferente. Vindo de uma vida dificil e machucada, mas que nunca esquece de esperar, por uma vida melhor, por um dia melhor, por um mundo melhor.

E de novo eu pergunto, como viver dividida, entre uma vida passada e uma vida presente e quem sabe, futura? Como nao esquecer de onde vim? De onde sou e como cheguei ate aqui? Adaptar, sim. Esquecer, jamais. Mas Deus me ajude porque esses momentos de desencontro doem mais do que deviam.

Claudia Farr

17 de Fevereiro de 2008